Eu passei uma vida toda ouvindo estórias.Então chega ao ponto que tenho de contar as minhas.

Contos de CharonttE


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Segunda-feira :::

Testosterona Pura.

Carlão é homem, forte e canalha. É macho e fim. Sendo assim não pode negar fogo nem oportunidades de provar isso para si e para quem estiver perto. Um exercício constante posto em prática a fim de firmar seu papel de homem, macho, forte e canalha. Nada lhe tira do sério a não ser qualquer insinuação sobre ser corno, viado ou filho da puta.
Voltava para o morro do Come Bem depois de passar o dia labutando. Ônibus lotado e um abafado do caralho. Estava sentado quando viu aquela mulher subir na Avenida Getulio Vargas. Saia branca, blusa de seda amarela com alcinhas. Cabelo cacheado posto para um dos lados feito uma serpente subindo a cabeça dela, domada pela fivela em forma de borboleta dourada posta na altura da têmpora esquerda. Duas paradas depois uma senhora baixa, grisalha e inofensiva também entrou naquele inferno. Percebendo a chance de ouro ofereceu o assento para quem tinha mais idade dando-lhe as costas para ficar por de trás da dona da fivela dourada. A mulher exalava lavanda de neném e isso a transfigurou em ninfeta. Os braços de Carlão estavam segurando a barra de ferro ensebada do alto e seu suor combateu o perfume dela. O homem sabia que era um armário. Só pensava em arregar de qualquer confusão quando tinha alguém armado de passa-fogo ou em ultimo caso em menor número. Ali não teria ninguém com peito para impedi-lo. Na primeira curva fechada pendulou o corpanzil despretensiosamente. A massa de carne, rostos, ossos sentada e em pé em silencio foi espectadora da encoxada. Quando ela sentiu olhou para traz sem acreditar no que estava acontecendo deparou-se com um homem enorme de cara de paisagem. A miserável atinou a intenção do cafajeste, mas o ar fugitivo do susto levou consigo sua coragem. O garanhão esfregava seu pau duro por debaixo da calça jeans surrada na bunda grande daquela figura tenra. Uma princesa de filme da Disney passiva em todos os sentidos. Cada curva uma alegria, cada freada uma festa no ego de Carlão. A moça de saia fechava e revirava os olhos e mordia os lábios sem saber o que fazer. Na tentativa de não demonstrar nada falhava miseravelmente. Ele percebia e investia mais forte e menos discretamente. Era desconcertante, pois já havia gente percebendo e ambos sabiam disso. Houve um principio de crise de riso quando ela quase tomou coragem de mudar de lugar. Acabou hesitando com receio de ser seguida dentro do coletivo. Ela pediu parada e desceu. Antes de ir arriscou uma olhada de rabicho de olhos para Carlão e sorriu revelando a safadeza que toda rapariga tem dentro de si e o pai não pode saber. Ele estufou mais o peito até quase não agüentar ficar de pé. Olhou para os lados para deixar claro que aquela mulher não era de mais ninguém. Coitado de quem se declarasse dono daquela formosura. Só bastava uns três bem merecidos sopapos na cara de algum besta para a noite de exercício de macho de Carlão ser perfeita. Foi para casa e parou no bar do Gordo. Na oitava cerveja colocou a mão no bolso para comprar amendoim quando deu por falta da carteira.
Em outro canto da cidade comemorava mais um golpe bem sucedido uma mulher vestida de saia branca, blusa de seda amarela com alcinhas e cabelo comprido, preso por uma fivela em forma de borboleta que curtia alucinadamente a sexta-feira na companhia de uma senhora de aparência inofensiva, muito baixa, grisalha e dedos leves. Cortesia da carteira recheada de seu Carlão.




::: posted by RICARDO WANDERLEY GOMES SILVA at 4:54 PM


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Domingo :::

Cabeça de Porco

Continua em destaque o incidente diplomático envolvendo São Malaquias e Tirolez, países da Europa Oriental de historia comum. Duas nações rivais (que já foram um único país) e passam por um delicado momento de hostilidades históricas ressurgindo.
Há cerca de cinqüenta anos, quando São Malaquias não passava de uma província submissa a Tirolez, o açougueiro Sebask Tertev – vulgo Cabeça de Porco – apaixonou-se perdidamente pela filha do Alfaiate Carl Munnk. Inconformado por ter tido o pedido de casamento recusado por um cidadão de uma região considerada “inferior”, decidiu vingar-se seqüestrando a moça. Tudo isso na frente de uma multidão estarrecida que não teve coragem de intervir em um ato de tamanha barbárie. Dois dias depois os braços esquartejados da jovem foram entregues no meio da noite num embrulho feito com jornal velho, normalmente utilizado para embrulhar a carne do seu açougue.
Não era a primeira vez que um evento desse nível era registrado em mais de 200 anos de historia comum daqueles povos. Contudo, aquilo acabou sendo a gota d’água para um povo cansado de tantas humilhações por parte do distrito mais expoente. Em cerca de seis meses organizou-se uma frente para-militar que marchou dizimando tudo que fosse possível em Tirolez. Por terem sidos pegos de surpresa a derrota foi fulminante. Ao fim daquele ano era reconhecida pela ONU a Republica de São Malaquias, detentora de cerca de 50% do antigo estado do qual fazia parte. Sebask Tertev foi assassinado de forma tão brutal quanto o da sua vitima. Quando foi capturado em sua residência, o psicopata mantinha viva a filha de Carl Munnk. Completamente esquizofrênica.
Impulsionados pela vitória contra os antigos opressores, São Malaquias passou a desenvolver em ritmo furioso sua economia e avanços sociais. Em contrapartida, o povo Tirolez não conseguiu seguir em frente. Seu IDH passou a ser um dos piores do mundo. O estado passou a sofrer de uma depressão em massa como nunca se tinha registrado antes em nenhuma nação do mundo. Não havia mais produção de alimentos, de energia, vontade ou desejo de viver. O índice de suicídios chegou a taxas tão elevadas que no seu auge um em cada dois habitantes teve um parente que se matou. Atualmente são cerca de cinco habitantes por pessoa nessa situação.
O impasse em questão é referente a casa de Sebask Tertev. Localizada em Montev é considerada uma das cidades mais miseráveis do país. O sobrado ainda continua de pé, exalando uma aura de vergonha que contamina todos aqueles que por ela passam. É taxada pelos habitantes como a responsável pela atual (e lastimável) situação econômico-pisco-social dos habitantes.
Não há investimento estrangeiro de qualquer espécie na região. Atualmente apenas o governo de São Malaquias reverte um valor mensal para impedir que o monumento – tratado como marco de sua independência – seja demolido ou abandonado. Esta verba é uma das principais fontes de renda do povo Tirolez que se engalfinha sempre que é anunciada a presença de uma nova vaga para trabalho. Várias mortes já foram registradas durante o processo de recrutamento.
Apesar de ser taxado de atração turística internacional, não há registros de turistas que não sejam procedentes de São Malaquias. Quando lá estão urinam e defecam na sua frente e interior para apreciar os zeladores da atração limpando impassíveis os dejetos expelidos. No contrato que garante seus empregos, os funcionários são instruídos a não importunar os visitantes durante a sua estadia e a casa precisa permanecer impecável. Dessa forma impressionante casa mais bem conservada do país é a de Sebask Tertev.
Resta saber se os embaixadores das nações unidas mediarão os debates ou seguirão impassíveis por não conseguir suportar a sufocante atmosfera carregada de energia psíquica de revolta da região.




::: posted by RICARDO WANDERLEY GOMES SILVA at 12:43 PM


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Sábado :::

Eu sou quinhentos e mais o infinito!

Pode me chamar de tudo, nega! Quem você queria agora encaixado nas tuas pernas, dando esse abraço, beijando a tua boca e onde mais precise. Basta fechar os olhos e não ligar para realidade. Magia que só ocorre quando as pálpebras estão totalmente à mostra e só você me enxerga com os olhos fechados. Fiquei interessadíssimo em ser sua quimera particular enquanto você tiver o que eu quero. Mil transformações por minuto na velocidade do seu pensamento. Nem precisa me consultar. Você decide e pronto. Aconteceu.
Eu não me importo de ser taxado de corno. Por sua causa nem ligo se você trocar meu nome. Mesmo que não seja e saiba disso eu sou aquele tarado, o seu amor, o responsável pelo "Meu Deus" e a tentação. De ser aquele amigo e o primo que nunca te notou de outra forma mas você nunca esqueceu. Tanto faz para mim ser Paulo, Junior, Guto, Claudia ou Alcebíades. Sou super-homem voando depois de salvar seu mundo, o Cavalo de Fogo te levando pra cavalgar em Darshan e o príncipe no corcel branco. Atendo por qualquer nome, apelido, alcunha, grunido sem sentido, palavrão e o escambau agora. Depois eu não garanto.
Sou todos aqueles do pôster grudado na parede e da porta do armário que você encheu de beijos gastando o batom da sua mãe. Canto para seu nome em inglês, espanhol e três línguas a sua escolha. Largo a mocinha só para lhe por no lugar dela em dois tempos.
Para te agarrar me metamorfoseio em homem, mulher, criança pecadora de potencial pra chave de cadeia e o senhor charmoso pai da sua amiga.
Grita bem alto que eu não ligo e digo SIM! Põe para fora aquele palavrão cabeludo, escondido desde a época que sua mãe e a freira do catecismo disseram pra não dizer pros outros.
Sonhe acordada que eu sou aquele camarada por quem daquela vez que você acabou esfregando suas coxas uma sobre a outra, freneticamente, quase perdendo o controle de tudo e lhe acabou lhe deixando exausta, mesmo sem um toque de mais ninguém exceto os que aconteceram na sua cabeça luxuriosa.
Ah menina, o que eu não faço para ficar contigo...



::: posted by RICARDO WANDERLEY GOMES SILVA at 2:44 PM


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