Sexta-feira :::
Rotina de sorveteria.
Tranco meu pai dentro de casa e imploro aos céus para dar tempo. Corro para sorveteria e encontro Thiago assistindo calmamente garotos se servindo com calda zerada e doces que mascaram o sabor do sorvete, mas todo mundo adora. Axé music alto revelando nossa localização. Esbanjam despreocupados mesadas mais gordas que os pais chamam entre si de fim de décimo terceiro. Já passa das seis horas. Vamos rápido já que hoje é dia de paredão no BBB e o expediente invariavelmente acaba mais cedo.
Desligo o som puxando direto da tomada. Grito: Thiago fecha tudo agora! Todo mundo olha sem saber o motivo de ser enxotado por um doido com olhos arregalados. Pergunto se os pirralhos moram próximo. Não moram. Melhor ficarem aqui, seriam pegos facilmente caso saíssem agora. Da ultima vez que vi estava lá na esquina. Thiago quer por que estou em pânico. Quer saber por que vamos fechar quatro horas antes do previsto. Não dá tempo, falo depois. Eu juro. Ponho todos para dentro em dois tempos. Cadeiras e mesas deixadas do lado de fora. Tomara que ele não destrua nenhuma. Cada vez que escuto o barulho meu coração vai parar na garganta.
Quando finalmente o cadeado fecha o portão eu solto um ultimo suspiro e apago as luzes. Olho para o fundo da sorveteria e vejo a porta de trás aberta. Entre correr bancando o herói e rezar escolho a intervenção divina quando sinto o chão tremendo pelos passos cadenciados. É igualzinho ao filme. Estamos amontoados do jeito que podemos debaixo do balcão. O mais novo dos meninos começa a chorar. Pede pela mãe. Ninguém entende nada. Digo que é um esconde-esconde. O melhor de todos, mas ele tem de ser macho. Ponho a mão na sua boca e digo pra morder caso senha medo. Todo mundo olha para o chão. Somo eu e Bush filho, criamos um pânico tamanho que a essa altura ninguém nos questiona mais.
A sombra da esquina ganha corpo físico. Toneladas de músculos, com quinze metros de altura, garras do tamanho da minha cabeça se revelam como temia. O focinho cravejado dentes de um palmo e narinas sensibilíssimas aspiram o ar de onde estamos. Fungada forte o suficiente que capaz até de puxar nossas almas para fora dos corpos. Rezo para que nenhum celular toque, ninguém espirre, que todos continuem olhando para o chão e aquilo acabe logo. Devia ter tido coragem para fechar a porta de trás. Teríamos mais chance. Tenho vontade de vomitar, de chorar pedindo a minha mãe. Penso em tudo que ainda não fiz e juro para Deus realizar caso ganhe essa segunda chance. Se o menino morder mais forte acho que minha mão vai sangrar. Dói demais. Ele quer fugir e eu seguro o mais forte que posso entre meus braços. Quer gritar, mas falo para ele ficar quieto num sussurro que nem sei se pode escutar.
Um rosnado chateado de quem ainda não matou a fome prenuncia a despedida da morte. Ele passa seguindo o caminho da rua. Anda até a frente da loja, derruba algumas cadeiras por birra e parte.
Aguardamos até finalmente nos sentirmos seguros. Thiago olha pela fresta da janela e confere se esta tudo em ordem. Ainda dopados pelo medo ficamos sentados lá dentro. Meu irmão resolve abrir novamente o portão. Eu acendo as luzes e juntos levantamos as cadeiras derrubadas. Os meninos põem novos sorvetes, pagam, agradecem dizendo que vão voltar e vão embora olhando para os lados.
E assim passamos o fim da noite ao som de MarretaYou Planeta. Cumpro minha primeira promessa: respeitar o gosto musical dos outros.
::: posted by RICARDO WANDERLEY GOMES SILVA at 6:58 PM
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