Eu passei uma vida toda ouvindo estórias.Então chega ao ponto que tenho de contar as minhas.

Contos de CharonttE


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Domingo :::

Alô? Acorda pra tomar gagau!

São três da madrugada. Chuva batendo na janela numa cantoria de ninar impecável. Uma cama box enorme de lençóis de seda, edredons e travesseiros que exalam aroma de camomila. Há pelo menos 3 horas o único som humano que se escuta nesse quarto é a respiração da mulher que é a atual usuária de tudo aquilo. Debaixo do edredom habita a dona da respiração. Está dentro de uma camisola de rendas que lhe desce até as coxas, sem nada para proteger seu sexo – fruto de um hábito preservado desde a tenra infância.
Para nossa protagonista dormir é um ritual sagrado de voltar a ser o mais próximo do que ela se lembra de si mesma. Crê fervorosamente que enquanto permanecer ali o seu rosto de porcelana fina resgatará a forma original cujas rugas do transito estático de vários quilômetros, o trabalho estafante, almoço sem tempero e contas ainda não pagas cravaram-lhe para corromper a bela tez. Atualmente ainda se mostra satisfeita com o que enxerga. Vive um empate técnico. Infelizmente a pele firme tem vacilado na batalha do tempo e cada dia ela acorda precisando de mais forças para se acostumar com aquela estranha vagamente familiar. Como não tem tido paz suficiente as entradas e dobras ganham significativo terreno manhã após manhã. Especula utilizar uma porção extra de creme rejuvenescedor ou sair com um saco na cabeça. Pelo menos a mascara pausaria o tempo. Enfim, tudo são devaneios e conjecturas de um futuro impossível de ser derrotado. Mesmo assim ela credita ganhar a batalha hoje.
Então algo de errado acontece no mundo dos sonhos. O rapaz galante do filme é interrompido por um barulho inconveniente que lhe tira a atenção. Ele fala aquele apito musicado sem sentido. Pessoas ao redor só se comunicam balbuciando o mesmo grito. Ninguém entende. O ruído faz parte daquele mundo e estão todos ficando loucos! Então ela percebe que o seu telefone está tocando. Frustrada por aquilo ser um sonho, volta para nosso mundo catando o aparelho desgraçado que insiste em gritar. Ela vai acabar com aquele sofrimento, pois vai desligá-lo assim que o encontrar. Não vai atender nada e vai voltar ao ritual. Se tudo correr bem nem vai notar no outro dia que o sonho foi interrompido. Quem sabe até descobre por lá um meio de ficar para sempre naquelas bandas, basta só voltar a dormir. Mas o tal estava difícil de ser encontrado e isso acarretou numa doze maior de estímulo de despertar. Quando finalmente o descobriu dentro da gaveta do criado-mudo já estava sentada na cama, não parecendo em mais nada com a mulher do início do conto. O brilho emitido lhe roubou a ultima das esperanças de voltar à realidade fantástica. O jeito era atender e seguir a vida com mais uma derrota nas costas. Poderia ser importante.
Com o celular já em punho, berrando feito recém nascido desmamado, ela encontrou o nome do sem-alma que lhe tirou do transe e a batalha entre ódio e amor começou entro de si mesma com vencedor em menos de 2 segundos de conflito. O que diabos aconteceu para ele ligar naquela hora. Engoliu as raivas e atendeu com o mais próximo do que reconhecia como voz.
- Oi marquinhos... - um barulho enorme transformou o quarto em música horrivel nas alturas, luzes de todos os lados, gente conversando, mais celulares tocando e vibrando, copos secos e cheios, cerveja, mulheres raparigando, gente pedindo alguma coisa, tira-gosto, suor, calor, lama e tudo mais. Agora que o sono ia ter um trabalho em dobro para voltar. No meio daquele inferno ela reconheceu a voz do namorado cheio de romance.
- Ei menina, tais em casa? Né? Oa, tou aqui num bar perto da tua casa, tomando uma mais a galera do trabalho. Mas eu chego já por aí! Já vá fazendo a cama porque quem tu ama chega daqui a pouquinho, ví!?
O som descompassado das sílabas revelou uma criatura, que caso não batesse o carro no caminho molhado de chuva entraria quarto a dentro encharcado e fedendo a suor azedo, lhe arrancando o edredom para lhe chegar a um corpo que só precisa de descanso. Ia meter um caralho molenga numa vagina seca até conseguir uma gozada para dormir por cima dela feito um porco. Caso ainda tivesse forças para tanto.
- Mas vá tomar no cú não! – falou decidida. Desligou o telefone e o sacudiu desligado no outro canto do quarto. Ainda teria algumas horas para voltar a ser feliz naquela noite e quem sabe o bonitão do filme passasse mais um sonho ao seu lado.




::: posted by RICARDO WANDERLEY GOMES SILVA at 4:38 PM


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